Quando um disjuntor desarma só numa fase ou a casa fica com metade dos circuitos sem energia, as causas costumam ser carga mal distribuída entre as fases, um circuito específico sobrecarregado ou um defeito no próprio disjuntor ou na ligação dele. A medição de corrente em cada fase, feita por eletricista, é o que separa uma coisa da outra.

Como funciona a rede com duas ou três fases

Em muitas casas brasileiras a energia chega em duas fases e um neutro (padrão bifásico) ou em três fases e um neutro (trifásico). A tensão entre uma fase e o neutro é 127 V ou 220 V, conforme a região. Entre duas fases a tensão fica em 220 V ou 380 V.

No quadro, os circuitos de iluminação e tomadas costumam ligar entre fase e neutro. Chuveiro, ar-condicionado e forno elétrico costumam usar duas fases, com disjuntor bipolar. A ideia é distribuir os circuitos: cada fase deve receber uma parte da carga total.

Quando essa divisão fica desigual, uma fase carrega mais corrente que as outras. Isso pode derrubar um disjuntor, e o problema aparece como "só um lado cai".

Vídeo: DISJUNTOR DESARMOU - DESCOBRINDO A CAUSA ! — canal COISAS de ELETRICISTA - Everton Parreiras (YouTube)

Disjuntor bifásico desarmando: o que "só uma fase" quer dizer

Um disjuntor bipolar tem dois polos presos por uma alavanca única. Se um polo detecta sobrecorrente, a alavanca cai e os dois desligam. Por isso, é raro ver "um polo só" desarmado num bipolar bem construído.

O que o morador percebe, na prática, costuma ser uma destas situações:

  • O bipolar de um aparelho desarma e só o que depende dele fica sem energia (chuveiro, ar, forno).
  • O disjuntor geral desarma e a casa inteira apaga.
  • Alguns circuitos unipolares estão sem energia enquanto outros funcionam. Pode ser que a fase que os alimenta esteja desligada na entrada, ou que um disjuntor de entrada tenha desarmado.
  • A distribuidora tem problema numa fase e parte da casa fica sem energia mesmo com tudo ligado no quadro.

Em disjuntor desarmando toda hora, o que pode ser depende de qual dessas situações ocorre. Por isso, antes de qualquer hipótese, olhe qual alavanca caiu.

O que você pode observar sozinho

Sem abrir o quadro nem encostar em nada:

  1. Veja qual alavanca está na posição desligada e anote o que ela alimenta (a etiqueta do quadro ou a lista de circuitos ajuda).
  2. Tire da tomada os aparelhos desse circuito.
  3. Rearme uma vez. Se aguentar sem nada ligado e desarmar quando um aparelho é ligado, o problema está nesse aparelho ou no circuito dele.
  4. Se desarmar na hora, mesmo sem nada, deixe desligado: é defeito na fiação ou no disjuntor.
  5. Veja, sem tocar, se o disjuntor tem cheiro de queimado, marca escura ou caixa deformada. Se sim, não religue.
  6. Pergunte aos vizinhos se também estão sem energia numa parte das casas. Se for o caso, o problema pode ser da rede da distribuidora.

Medir tensão ou corrente com o quadro aberto não é tarefa de morador. O quadro tem barramentos energizados mesmo com os disjuntores desligados, porque a entrada continua alimentada.

Como o eletricista mede a corrente em cada fase

O profissional usa um alicate amperímetro, que mede a corrente em cada condutor sem precisar cortar o fio. O alicate abraça o cabo de cada fase, com o quadro ligado e a casa em uso normal, e lê o valor. Esse procedimento é realizado por quem tem treinamento e EPI de NR-10, com o quadro aberto e circuitos energizados.

A medição segue um roteiro:

  1. Ligam-se, por um período, os aparelhos que costumam ficar ligados juntos (chuveiro, ar, ferro, forno).
  2. Mede-se a corrente em cada fase, uma por vez.
  3. Compara-se o resultado com a capacidade do disjuntor e do fio daquele circuito.
  4. Se uma fase estiver muito acima das outras, o eletricista decide quais circuitos trocar de fase.
  5. A mudança de circuitos de fase no quadro é feita com o padrão desligado, depois da medição.

A diferença que justifica agir não é um número fixo: depende da carga total, da bitola dos cabos e do disjuntor geral. Peça ao profissional que mostre os valores medidos em cada fase e explique o critério.

Tabela de distribuição de cargas entre fases

Esta tabela é um exemplo de como o eletricista pode organizar uma casa bifásica ou trifásica. Os circuitos reais e as potências dependem dos aparelhos que você tem, e os valores são só referência.

CircuitoTipo de ligaçãoSugestão de distribuição
Chuveiro elétricoDuas fases (bipolar)Fases A e B
Ar-condicionado grandeDuas fases ou fase e neutro, conforme o modeloNo trifásico, fase ou par de fases menos carregado
Forno elétrico ou cooktopDuas fasesNo trifásico, par de fases diferente do chuveiro
Tomadas de cozinhaFase e neutroFase menos carregada
Tomadas de sala e quartosFase e neutroAlternando as fases
IluminaçãoFase e neutroFase com menos carga

O objetivo não é igualar o resultado ao watt, e sim evitar que uma fase concentre os aparelhos mais pesados enquanto outra fica quase vazia. Em casa de padrão bifásico há apenas duas fases para dividir, o que torna o equilíbrio menos flexível que no trifásico.

Ao distribuir spots entre circuitos, veja como passar fio pelo forro de PVC e de gesso.

O que pode estar por trás de um bipolar que cai

  • Sobrecarga do circuito: aparelhos demais ligados ao mesmo tempo ou circuito com disjuntor menor do que o necessário.
  • Defeito no aparelho: resistência queimada, motor travado ou isolação ruim.
  • Ligação frouxa no borne do disjuntor, que aquece e faz o disjuntor desarmar por temperatura.
  • Disjuntor cansado: depois de muitos desarmes, o mecanismo pode ficar mais sensível ou folgado.
  • Fuga para a terra ou curto em algum ponto da fiação.

Em todos os casos, troca de disjuntor, reaperto de conexão e mudança de circuito exigem desligar a entrada e trabalhar com NR-10 e NBR 5410.

Sinais de que a fase está mais carregada que as outras

Mesmo sem instrumento, a casa dá pistas de desequilíbrio. Luzes que ficam fracas quando um aparelho pesado liga, e só em alguns cômodos, sugerem que aqueles circuitos dividem a mesma fase com a carga. Um grupo de tomadas que perde energia sempre junto, enquanto o resto da casa segue normal, aponta para uma fase ou para um disjuntor específico. Também vale reparar no horário: se o desarme acontece quando a cozinha e a área de serviço funcionam ao mesmo tempo, a carga daquela fase passou do que o disjuntor tolera.

Anote o que estava ligado em cada desarme, o horário e qual alavanca caiu. Esse registro simples ajuda o eletricista a decidir para onde levar cada circuito e evita que a medição seja feita num momento em que a casa está quase parada, sem mostrar o problema.

Quando chamar um técnico

Chame um eletricista se:

  • O disjuntor bipolar desarma toda vez que o aparelho liga, mesmo com outro aparelho.
  • Há parte da casa sem energia e a distribuidora diz que a rede está normal.
  • O disjuntor esquenta, tem cheiro ou a carcaça derrete.
  • Você precisa saber se o padrão de entrada aguenta mais carga.
  • Há muitos aparelhos pesados concentrados numa só fase.

Na visita, o serviço de rebalancear fases no quadro deve ser feito com o padrão desligado. Peça ao profissional que anote o novo mapa de circuitos e fixe a etiqueta no quadro, para que o próximo morador, ou você mesmo, saiba o que cada alavanca comanda.